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“Quanto mais se cria vínculo, mais se fortalece a experiência agroecológica”

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03/06/2020

Foto: Ana Mendes / Acervo do Centro Sabiá

“Quanto mais se cria vínculo, mais se fortalece a experiência agroecológica”

O Centro Sabiá entrevista Caetano De Carli, historiador, sociólogo, professor de educação do campo e extensão rural da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco. Nesta prosa, conversamos sobre quais as características do campesinato brasileiro e como o atual contexto de pandemia afeta a produção da agricultura familiar hoje. 

CENTRO SABIÁ: Como se caracteriza o campesinato?

CAETANO: O campesinato é uma categoria usada na sociologia e pelos movimentos sociais para caracterizar os povos do campo enquanto classe social. Enquanto classe social, o campesinato é uma categoria bastante diversa, porque, desde a Pré-História, onde existe a agricultura, existe o campesinato enquanto classe. Há, no mundo inteiro, camponeses, campesinato de diversas maneiras, seja algumas sociedades capitalistas, seja também sociedades indígenas, sociedades do deserto, sociedades ribeirinhas, pescadoras. No capitalismo, o campesinato, que funcionava numa produção autossustentável de alimentos e o que o capitalismo, é obrigado a sobreviver na sociedade capitalista, então ele passa a funcionar de forma dupla. Ele passa a funcionar com essa função da resiliência, da autossutentabilidade, da produção dos seus alimentos, que é uma coisa que sempre caracterizou os camponeses ao longo da história. Mas também, para sobreviver na sociedade capitalista, é obrigado a também entrar nessa economia de mercado. Então, ele tem essa característica dupla nas sociedades capitalistas. 

O campesinato se caracteriza como uma classe muito política. Porque, no final das contas, a gente parte do pressuposto que tudo é política. E o campesinato, ao longo da história, é uma classe que assume o seu protagonismo político de várias formas. Seja em revoltas camponesas, ao longo de toda a História. Seja enquanto organização social, como também na produção de alimentos, na produção de uma cultura camponesa. A tradição alimentar brasileira, já falando um pouco da produção agrícola, é uma produção construída pelos povos do campo, pelos indígenas, pelos povos de origem africana, pelos povos afro-brasileiros e pela classe de trabalhadores livres. Mas se a gente tem essa visão mais alargada de campesinato, incluindo todos os povos do campo, a gente pode dizer que essa tradição alimentar brasileira é uma tradição alimentar essencialmente camponesa, essencialmente campesina. 

CENTRO SABIÁ: E no caso específico do Brasil há diferenças?

CAETANO: A História brasileira, a colonização brasileira, foi forjada a partir de um modelo de colonização que se baseava num outro tipo de agricultura que não é essa agricultura de produção de alimentos, que é a agricultura para a produção de uma mercadoria global, que inicialmente foi o açúcar, mas que hoje a gente vive uma etapa do capitalismo, que é a etapa do capital financeiro, e o capital financeiro ele se insere no setor agrário através de uma categoria que a gente chama de agronegócio. A gente chama de agronegócio a um sistema de produção que tem como característica essa inserção do capital financeiro, a inserção mais particularmente das multinacionais, em todos os setores alimentares, desde a produção de sementes ao uso intensivo de agrotóxico até também a parte de beneficiamento e a logística da comercialização. Então as multinacionais estão inseridas nessa agricultura hegemônica em todos os setores. Então, há uma disputa entre, de um lado, essa produção de alimentos feitos pelos camponeses, e de outro essa agricultura capitalista, que vem cada dia mais produzindo uma forma de alimentos que são alimentos para ser uma cifra financeira, uma commodity agrícola, alimentos ultraprocessados, cheios de agrotóxicos, cheios de venenos, que fazem mal à saúde, descaracterizado regionalmente. Então, a gente tem uma série de problemas que envolvem esse modelo de produção que é o modelo de agronegócio, que o modelo de produção campesina, ele não só se constrói como um enfrentamento contra esse modelo de agronegócio, mas também como uma alternativa. 

 “A tradição alimentar brasileira é uma tradição alimentar essencialmente camponesa, essencialmente campesina”. 

CENTRO SABIÁ: Chega a ser criminosa a forma como o campesinato é esquecido da história brasileira, quando se fala sobre toda a trajetória da agricultura em nosso país. Qual a importância do campesinato na construção de nossa agricultura hoje?

CAETANO: Bom, para falar da crise que a gente vivencia do Covid-19 e seus reflexos na questão agrária de maneira geral, a gente tem que entender que a crise econômica, política e social provocada pelo coronavírus  não é só um fenômeno biológico, também agrega outros fatores da sociedade, ela é também um agravamento de crise já existente. Então, a gente tem uma crise já vivenciada na sociedade capitalista a partir do ano de 2009, quando você teve uma crise severa do capital, no qual os reflexos já eram sentidos antes de começar a pandemia de Covid-19. Aqui no Brasil a gente já tinha um baixo crescimento do PIB, a gente já tinha um processo de uberização da economia, e a pandemia de Covid-19 vem agravar essa crise. Agravar uma crise também que é feita por conta de um modelo de Estado que emerge dentro desse capitalismo global, que é o modelo do neoliberalismo, que se ausenta de regular as políticas públicas e passa a ser cada dia mais sucateado e privatizado. 

E a questão agrária, no meio rural não está desligada desse processo. Então, assim, é muito importante que a gente entenda que a gente já vivia dentro do campo um processo de avanço do agronegócio, um processo de desemprego rural, um processo de falta de oportunidades para a juventude do campo, um processo de aumento do envenenamento do alimento. Então, a crise de Covid-19 vai agravar isso, as pessoas têm consumido cada vez mais alimentos ultraprocessados, a gente vê que várias feiras pararam de funcionar por conta da pandemia e, de outro lado, os supermercados estão funcionando e isso faz, naturalmente, com que as pessoas tenham consumido mais esses produtos ultraprocessados. 

Ao mesmo tempo, movimentos sociais e ONGs, como Centro Sabiá e a Rede ASA, trabalham nessa organização da produção, ou seja, de fazer com que cada vez mais haja um vínculo direto entre o consumidor da cidade e o produtor do campo. Mas também vem atuar em outras frentes de luta, como a campanha Mãos Solidárias, é um exemplo muito forte aqui em Pernambuco, onde os movimentos camponeses e as ONGs têm organizado uma grande campanha de solidariedade para atender às populações mais necessitadas da periferia, os moradores de rua. Então, o campo tem um protagonismo político muito forte nessa crise, esses movimentos mais organizados. E também eu acho que vai ter nesse pensar o mundo pós Covid-19 um papel central, a organização de novas pautas de lutas e a retomada de outras pautas de luta dos movimentos camponeses para que a gente construa efetivamente uma sociedade mais justa quando passar essa crise. 

CENTRO SABIÁ: Estamos vivendo uma crise, uma crise que vai além do econômico, mas também é social, política e de saúde. Caetano, qual o tem sido o papel do campo no enfrentamento ao Coronavírus? O campo parou?

CAETANO: Bom, eu acho que quando a gente está falando de trabalho do campo, não é o camponês ele está parado. Não, o camponês está, dentro da sua própria dinâmica, produzindo na sua terra. 

Aqui no estado de Pernambuco, coincidiu esse período de isolamento com a chuva no semiárido. Então, os camponeses têm constantemente trabalhado a sua terra como deve ser feito. Agora, a gente tem um problema que é justamente alguns canais de comercialização, principalmente dessa produção que não estava muito organizada, eles pararam. E eu acho que a gente tem que repensar, assim, essa relação de trabalho, tendo em vista que a gente tem que construir alternativas mais concretas para que esse território rural se sustente, porque, se você deixa isso solto, que acontece é que o modelo do agronegócio vai tomar conta dos territórios e a gente vai ter a extinção da vida no campo de maneira geral. Então, é muito importante que a gente repense esse modelo de sociedade rural e que a gente traga, para a construção dessa nova sociedade, algumas pautas que vêm sendo levantadas historicamente pelos movimentos camponeses, como a agroecologia, como a reforma agrária, como a defesa dos programas de compra institucional, como PAA, o PNAE. E isso tem sido pauta mesmo desses movimentos camponeses. A gente tem visto que esses movimentos não estão parados, pelo contrário. Eles estão envolvidos, seja politicamente, seja em lutas como as campanhas Mãos Solidárias e Periferia Viva, como também na própria produção de alimentos. 

CENTRO SABIÁ: É interessante perceber que, quando o trabalhador para o mundo para. Você vê a atual pandemia como uma oportunidade de que se repense o trabalho no campo e as suas condições de trabalho?

“A cidade depende do campo porque precisa se alimentar”

CAETANO: Bom, a cidade depende do campo porque precisa se alimentar. E o alimento ele vem do campo, não vem da cidade. E eu acho que a melhor forma das pessoas da cidade terem um protagonismo maior sobre o que está acontecendo nas sociedades rurais, eu acho que parte de um processo de pensar mais sobre que tipo de alimento eles estão consumindo, pensar que o alimento ele não é produzido no supermercado. Ou seja, o alimento, para chegar no supermercado, ele passa por uma série de questões sociais, políticas, que até chegar ali na prateleira do supermercado. Então, o fato da pessoa estar consumindo uma rede de supermercado multinacional ou estar consumindo num mercado de bairro, uma feira agroecológica, é um ponto que o consumidor deve pensar. O fato de se estar consumindo alimentos numa rede fast food ou estar produzindo [acho que ele quis dizer “consumindo”] num restaurante do bairro, no comércio do bairro, é um ponto de reflexão. É importante que os consumidores da cidade também reflitam se aquele alimento que ele está consumindo é um alimento que está envenenado, se é um alimento de uma multinacional ou se é um alimento produzido pela agroecologia, por esse campesinato que tem esse paradigma da agroecologia. Ou se é um alimento produzido por um produtor local. Então, essa experiência do consumidor de pensar o alimento que ele está consumindo, na prateleira do supermercado ou no restaurante, ele é fundamental para que a gente construa uma relação mais harmônica entre campo e cidade. E a gente vê que hoje no mundo, a gente tem um progresso muito forte, esse aumento de consciência dos consumidores mais urbanos. A gente tem cada vez mais o aumento disso, as pessoas estão mais preocupadas com o alimento que está consumindo, estão mais propensas a consumir esses alimentos da agroecologia, e menos propensas a consumirem do agronegócio, esses alimentos mais envenenados. 

“Quanto mais se cria vínculo, mais se fortalece a experiência agroecológica”

CENTRO SABIÁ: E como a sociedade pode se engajar?

CAETANO: Somente a consciência individual não basta. É preciso que os consumidores se engajem em alguns coletivos que trabalhem com essa coisa do consumo consciente. Como é necessário também que os produtores, os camponeses, eles se engajem em cooperar, em se organizar... Porque as feiras, por exemplo, só para te dar um exemplo, várias feiras elas foram paradas por conta das medidas necessárias de isolamento. Entretanto, os supermercados eles continuam abertos. Por que que essas feiras pararam? Porque muitas feiras em que você não tinha uma organização, seja do consumidor, seja do produtor, é verdade que você não podia continuar de forma desorganizada e amontoada porque era um risco sanitário e um risco de infecção em relação à Covid-19. Entretanto, a gente vê várias experiências, inclusive as feiras agroecológicas do Sabiá ou a experiência do MST do Armazém do Campo, em que você tem uma organização social por trás, um movimento social, uma ONG ou os consumidores organizados é que fazem com que essas feiras elas consigam funcionar seguindo as medidas necessárias de limpeza, de organização de filas. Ou seja, também em relação a entregas online, mas que, de uma forma ou de outra, fortaleça esse vínculo entre o consumidor da cidade e o trabalhador do campo. Quanto mais a gente cria vínculo entre quem consome e entre quem produz o alimento, que é o camponês, mais a gente fortalece essas experiências agroecológicas, essas experiências de desenvolvimento local e a gente constrói também uma nova sociedade: é a cidade ajudando o campo a se transformar. 

 

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