As mudanças climáticas e os impactos na produção de alimentos
Por Maria Cristina Aureliano
Coordenadora Geral do Centro Sabiá

Quando falamos sobre mudanças climáticas de impactos diretos na vida de quem mora no campo e na cidade. São eventos extremos como períodos de secas muito longas e intensas, redução no volume de chuvas, ou fora de época e muita chuva em pouco tempo, causando inundações, quedas de barreiras e mortes. Há pelo menos 30 anos esses fenômenos se tornaram frequentes.
Em 2000, 2010, 2017, 2022, aconteceram grandes inundações na Zona da Mata pernambucana com prejuízos, em especial para as famílias agricultoras que produziam hortaliças. As que foram menos impactadas, e conseguiram se recuperar mais rapidamente após as enchentes, foram aquelas que trabalhavam com a agricultura agroflorestal. As agroflorestas trouxeram resiliência para os sistemas de produção e funcionaram como uma estratégia de adaptação climática. As famílias agricultoras que tinham sistemas de produção baseado em hortaliças, perderam tudo. E não só elas foram afetadas, mas também os consumidores, no abastecimento e no preço dos alimentos.
Nas regiões semiáridas do estado vários alimentos tiveram sua produção diminuída ou seriamente prejudicada pelas mudanças no regime das chuvas. Como as culturas do café em Garanhuns, da beterraba em Jataúba e da cenoura em Brejo da Madre de Deus, referências na produção desses alimentos nos anos 1990. Cientistas alertam que a mandioca/macaxeira pode ter sua produção severamente afetada no Nordeste, pelo aumento da temperatura.
Apesar dos desafios, agricultores e agricultoras familiares camponeses vêm desenvolvendo soluções eficazes de convivência com o clima semiárido. Um dos principais exemplos é o uso de tecnologias sociais voltadas para o armazenamento de água, sementes e forragem, promovidas pela Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), rede com 25 anos de atuação. Essa experiência se consolidou como uma referência internacional em adaptação climática, aliando produção agroecológica, recuperação de solos e combate à desertificação.
Em 2013, essas tecnologias foram reconhecidas e transformadas em política pública por meio da criação do Programa Cisternas (Lei 12.873/13), que visa universalizar o acesso à água no Semiárido. Durante a seca entre 2012 e 2017 — considerada uma das mais severas em meio século —, a adoção dessas inovações evitou mortes por sede, doenças e saques, como os que ocorreram nas décadas anteriores. O impacto foi potencializado por políticas sociais complementares, como o Bolsa Família, o aumento do salário mínimo, a aposentadoria rural, a Assessoria Técnica (ATER) e o Seguro Safra.
Outra tecnologia, que se soma às de armazenamento de água da chuva, são as de reuso de águas domésticas na agricultura. Diversas organizações da ASA, entre elas o Centro Sabiá e a ONG Caatinga, estão experimentando adequações deste modelo com foco na produção de alimentos, como o sistema RAC x SAF – Reúso de Águas Cinzas em Sistemas Agroflorestais, e já implantaram mais de 500 unidades no Semiárido pernambucano. Essa tecnologia surgiu como resposta ao desafio de implantar agroflorestas durante o último período de seca, garantindo uma irrigação de salvação a partir das águas cinzas filtradas. É um modelo que integra saneamento, saúde ambiental e produção de alimentos agroecológicos, com foco na segurança alimentar e na geração de renda, especialmente para mulheres agricultoras.
As soluções encontradas no Semiárido brasileiro mostram que é possível produzir alimentos de forma saudável mesmo em condições adversas. No entanto, para que essas estratégias ganhem escala e eficácia frente à crise climática, é essencial garantir financiamento público adequado e contínuo.
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