Caatinga, do esquecimento à vanguarda climática

Por Carlos Magno de Medeiros Morais
Coordenador do Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá e idealizador da Caatinga Climate Week

Faça um teste rápido: abra o Google, pesquise “sertão nordestino” e olhe as primeiras imagens por vinte segundos. Depois troque por “litoral nordestino” e repita. Onde você escolheria passar férias? A resposta é óbvia e é exatamente aí que está o problema. Uma região com quase 30 milhões de pessoas, a maior zona semiárida populosa do mundo, continua sendo representada por terra rachada, crianças com fome e mulheres carregando latas d’água na cabeça. Peça a qualquer provedor de inteligência artificial para gerar uma imagem do sertão e outra do litoral: o resultado será o mesmo. A estratégia da “história única”, da escritora nigeriana Chimamanda Adichie, continua povoando nossas mentes e, claro, esse lugar chamado internet.

Mas hoje, 28 de abril, Dia Nacional da Caatinga, o Brasil precisa trocar as lentes e olhar melhor esse lugar. A Caatinga não é o bioma do atraso, mas o bioma que o Brasil vai precisar entender quando a crise climática “derrubar”a nossa porta.

A Caatinga, em tupi “mata branca” pela coloração cinza das árvores que perdem as folhas na seca, é o único bioma exclusivamente brasileiro. Ela cobre cerca de 11% do território nacional e é habitat de espécies únicas no mundo. Plantas que hibernam durante a estiagem e guardam água nas raízes. Dezenas de espécies de abelhas nativas que coevoluíram com a flora local ao longo de milênios. Um patrimônio biológico que, em plena era de aquecimento global, é precisamente o tipo de conhecimento que o mundo está desesperadamente procurando e que o Brasil insiste em ignorar.

Essa invisibilidade tem custo. Em novembro de 2023 o Cemaden identificou a primeira zona árida entre Bahia e Pernambuco, é a primeira área desértica no Brasil. E o impacto não é apenas ambiental. Metade da agricultura familiar do país está no Nordeste, segundo o último Censo Agropecuário. São estas famílias responsáveis pela produção de alimentos na região. Degradar a Caatinga é degradar a segurança alimentar de um povo inteiro.

Mas há outras histórias para contar. Uma delas começa com a chuva.

No início dos anos 2000, a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) propôs algo simples e revolucionário: captar água de chuva do teto das casas na zona rural e armazená-las  em cisternas. Não teve mágica, foi um pedreiro sergipano que, ao migrar para São Paulo para construir piscinas, resolveu fazer cisternas redondas que eram mais simples. Esse conhecimento foi testado, sistematizado e escalado. O governo federal, pressionado pela sociedade civil, transformou o Programa Um Milhão de Cisternas em política pública. Hoje, mais de 1,3 milhão de cisternas foram construídas, levando água potável para mais de 5 milhões de pessoas de forma contínua. É um dos maiores programas de adaptação climática em terras secas do mundo.

Por décadas, o semiárido foi tratado como região-problema. O que as comunidades sertanejas construíram, com pouco e em condições adversas, prova que é região-solução em tempos de crise climática. Uma oportunidade de conhecer melhor é através da Caatinga Climate Week. onde o protagonismo é de quem vive e produz no semiárido, não de quem apenas fala sobre ele. 

Restaurar 1 milhão de hectares de Caatinga geraria quase 466 mil empregos e produziria mais de 7 milhões de toneladas de alimentos, com retorno financeiro de quase o dobro do investimento, segundo o Instituto Escolha. Não é apenas sobre o meio ambiente, é sobre economia e desenvolvimento.

A Caatinga acumula séculos de experiência com o que a crise climática está impondo agora ao planeta inteiro: calor, seca e irregularidade hídrica. Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), 40% das terras do planeta já são consideradas secas, colocando bilhões de pessoas diante da escassez de água nas próximas décadas. Quem estaria mais preparado para enfrentar esse futuro do que os povos que há séculos já cultivam vida, cultura e alimento nessas regiões?

A Caatinga já respondeu à seca por séculos. Agora, precisa responder à invisibilidade.

* Reprodução da Folha de São Paulo

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