DO CAIS AO SERTÃO: Segunda edição da Caatinga Climate Week, em Pernambuco, apresenta soluções climáticas no bioma exclusivamente brasileiro
Expedição reúne lideranças indígenas e quilombolas, agricultores familiares, representantes de movimentos sociais, articuladores da agenda socioambiental e gestores públicos para discutir estratégias de adaptação e políticas públicas

O Centro Sabiá e o Instituto Socioambiental (ISA) realizam de 01 a 03 de julho a segunda edição do Caatinga Climate Week, no Agreste pernambucano. Ao longo dos três dias, a expedição pela Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, irá visitar experiências de adaptação frente às mudanças climáticas e conhecer suas demandas por políticas públicas.
Mais do que discutir clima, a Caatinga Climate Week tem o objetivo de amplificar as vozes de quem já constrói soluções concretas a partir dos territórios, conectando saberes tradicionais, ciência, tecnologia, inovação social e justiça climática. Por isso, nesta edição, cada caminho levará à oportunidade única de ouvir lideranças indígenas e quilombolas, agricultores familiares, representantes de movimentos sociais, articuladores da agenda socioambiental e gestores públicos em uma programação imersiva, do cais ao sertão .
Os participantes poderão ainda entender como essas soluções podem ser desenvolvidas em diferentes cenários e constatar in loco que a Caatinga não é um lugar de escassez, mas de profunda relevância para o cenário global por suas características e povos que prezam pela criatividade e biodiversidade.

Por onde vamos passar
No Sítio Caruá, localizado no município de Vertentes, a Caatinga Climate Week vai conhecer o lar da família de Dona Cilene e Seu Zé Bocão, que, junto de seus filhos Estefany e Júnior, construíram um sistema produtivo integrado, com aproveitamento máximo da água que chega pelas cisternas. Eles vão compartilhar como a água segue por um sistema de dessalinização, faz seu trabalho produtivo e doméstico e, antes de ir embora, ainda dá uma volta pelo Sistema de Reúso de Águas Cinzas para irrigar o Sistema Agroflorestal, fechando um ciclo de inovação.
Na Associação dos Agricultores/as Agroecológicos/as, Agroflor, localizada em Bom Jardim, o grupo vai poder conhecer a história desse coletivo que nasceu do desejo de transformar vidas por meio da agrofloresta agroecológica. Com quase 30 anos de produção, são cerca de 300 variedades de alimentos in natura e beneficiados comercializados nos programas PAA e PNAE e nas feiras agroecológicas dos municípios vizinhos até o Recife, com pelo menos 50% da produção sendo feminina. A Agroflor resiste frente às dificuldades trazidas com as mudanças climáticas, especialmente a escassez de chuva..
No alto do Planalto da Borborema, no microclima de brejo de altitude, a Caatinga se apresenta de outra forma, com temperaturas mais frias e mais chuvas. É neste ambiente, a mais de 800 metros acima do nível do mar, que a caravana vai conhecer a forma como os Quilombos Estivas e Castainho, na cidade de Garanhuns, manejam os recursos naturais de forma sustentável, nos ensinando sobre adaptação climática por meio da gestão consciente da água.
No Agreste pernambucano, mais especificamente no município de Jucati, movimentos sociais, indígenas e quilombolas, cientistas e militantes da agroecologia se articulam para defender a continuidade das sementes crioulas, através da Rede de Sementes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco (Rede Semeam). A vivência vai compartilhar como o projeto empodera agricultores locais como guardiões da biodiversidade da Caatinga, resgatando saberes ancestrais e produzindo alimentos saudáveis.
Para uma discussão qualificada sobre justiça climática, a Caatinga Climate Week vai ouvir a experiência da Escola dos Ventos, que mostra que uma transição energética feita sem olhar para o ecossistema e para o modo de vida das pessoas prejudica tanto quanto os combustíveis poluentes. A iniciativa foi criada em 2023 por famílias agricultoras do Agreste de Pernambuco, na cidade de Caetés, e se consolidou como um espaço de articulação política, afeto e formação crítica.
No Território Indígena Xukuru, em Pesqueira, vivem mais de oito mil indígenas distribuídos entre 20 aldeias, o que os torna a etnia mais populosa do estado. Para eles, a agricultura tradicional e sagrada é a base de sua própria espiritualidade. A jornada vai passar por lá para conhecer a conexão profunda entre a terra e o sagrado, por meio de uma celebração à Mãe Tamain, realizada anualmente na Serra do Ororubá. O ritual homenageia Nossa Senhora das Montanhas, santa sincretizada e reverenciada como a mãe protetora.
Localizada na Serra do Sobrado, em Jataúba, um brejo a cerca de 1.000 metros de altitude, a Associação dos Pequenos Agropecuaristas do Semiárido Brasileiro (Apasa) desenvolve iniciativas de convivência com o Semiárido e de adaptação climática. Fundada em 2006 por famílias agricultoras, a Associação fortalece a produção e a comercialização de alimentos agroecológicos e também será uma parada obrigatória da caravana.
Em Caruaru, capital do forró, a expedição vai levar os participantes a visitas políticas e culturais, cheias de histórias para guardar na memória. Começando na comunidade do Sítio Carneirinhos, será possível conhecer as mulheres que passaram do cultivo de milho, feijão e algodão para a indústria têxtil e depois voltaram para o cultivo a partir da criação, em 2019, da Associação de Mulheres da Agricultura Familiar do Sítio Carneirinho. Do trabalho coletivo dessas mulheres saem alimentos sem agrotóxico, renda digna e convivência com a Caatinga.
Para discutir sobre merenda escolar, vamos visitar o Assentamento Normandia, que prioriza uma produção sem veneno. Nascido de uma ocupação em 1993, e reconhecido pelo Incra em 1997, o Normandia é um símbolo da luta e política camponesa, da segurança alimentar e da soberania popular, onde famílias agricultoras constroem, há mais de 30 anos, um modelo de produção agroecológico. A antiga sede da fazenda virou o Centro de Formação Paulo Freire, em funcionamento desde 1998 e coração político do MST em Pernambuco.
Muito mais do que um mercado popular, a Feira de Caruaru é uma imersão na alma da Caatinga. Nascida das antigas feiras de troca que conectavam agricultores, criadores e comerciantes, ela se transformou em um dos maiores espaços de comércio popular do país, reunindo milhares de pessoas, produtos, sabores e histórias.
O Solar das Abelhas, também será uma das paradas da Caatinga Climate Week. Ele está localizado no famoso bairro do Alto do Moura, em Caruaru, e é um Centro de Educação Ambiental referência em Pernambuco. Voltado à preservação das abelhas e do meio ambiente, ele foi idealizado pelo ambientalista e meliponicultor João Luiz Aleixo, ou Lula do Mel. O espaço funciona como um refúgio de conhecimento focado especialmente nas abelhas nativas sem ferrão.
Por fim, vamos parar no Alto do Moura, também em Caruaru, um local que carrega o título internacional de Maior Centro de Artes Figurativas das Américas, concedido pela Unesco. O bairro é um verdadeiro museu a céu aberto e um polo cultural vibrante, repleto de casas-museu e ateliês, em que o barro é a forma mais genuína de expressão cultural. Mestre Vitalino, Mestre Galdino, Mestra Nicinha Otília e tantos outros que uniram barro, poesia e música em obras simbólicas, continuam a ganhar forma pelas mãos de centenas de artesãos e artesãs locais, que perpetuam o fazer tradicional como patrimônio cultural.

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