Mulheres construindo um desenvolvimento rural feminista, antirracista, sem violência, com justiça e bem viver

Foto: Neila Santos

Estamos aqui em muitas vozes, que vivem, resistem e produzem. Somos mulheres dos campos, das águas, das florestas e das cidades, que estamos em nossos territórios, organizando a luta, fazendo agroecologia e cuidando da reprodução da vida.

Reconhecemos que o Brasil rural é muito diverso e plural. E nós, mulheres presentes na 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, viemos aqui afirmar que temos trabalhado muito, multiplicando sementes, produzindo bioinsumos, fazendo composteiras, agroflorestas, criando galinhas e realizando tantas outras atividades, além de todo o trabalho doméstico e de cuidados. Também nos organizamos e vivemos em nossos quintais, roçados, comunidades, nos maretórios e territórios rurais e urbanos, resistindo às mudanças climáticas e aos grandes projetos, lutando contra a fome, mas construindo agroecologia, soberania alimentar, convivência com os biomas e bem viver!

Estamos atentas!

É assustador o número de feminicídios no nosso país e a escalada de violências contra as mulheres, que promove a cultura do estupro, impulsionada por movimentos misóginos, como os Red Pill. Sabemos que não estamos seguras em nenhum lugar enquanto o patriarcado, o machismo e o racismo estrutural operarem nas engrenagens da nossa sociedade.

Nós queremos viver, por isso estamos aqui. Além de celebrar nossas conquistas, trazemos nosso apelo e pedido para que toda a sociedade se mobilize pelo fim da violência contra nós!

Neste mês de março de 2026 — marcado no calendário de lutas das trabalhadoras como mês de luta das mulheres — foi lançado um manifesto político que reuniu mais de 400 assinaturas de organizações feministas e mistas, do campo e da cidade: um manifesto pela vida das mulheres, contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1.

Nele, nós nos solidarizamos e nos somamos em defesa de todos os povos vitimados pelo imperialismo, que vem matando meninas e mulheres em Cuba, Venezuela, Irã e Palestina. Essas ofensivas capitalistas internacionais chegam também aos nossos territórios. Estamos vivendo o controle das nossas vidas; nossas companheiras estão morrendo na linha de frente dos conflitos por terra e sendo assassinadas por lutarem por seus direitos. A violação de direitos é uma realidade no cotidiano dos nossos territórios.

Reconhecemos medidas importantes adotadas pelo Governo Federal, como o Pacto Nacional pelo Fim do Feminicídio, a Política Nacional de Cuidados e as ações de apoio aos quintais produtivos das margaridas. Seguimos afirmando a necessidade de ampliar e fortalecer o apoio à organização produtiva e econômica das mulheres, o fomento aos quintais para o bem viver, à ATER feminista e agroecológica, com a ampliação do fomento produtivo para as mulheres e a desburocratização do acesso a crédito.

Mas ainda é preciso muito mais! Para isso, acreditamos na importância do feminismo popular e antirracista para promover ações concretas de mudança e transformação. É preciso criminalizar os movimentos misóginos que estão entre nossos jovens; é preciso garantir terra para as mulheres; é necessário que nossas escolas comunitárias e creches se ampliem e não sejam fechadas, como tem ocorrido em muitos territórios rurais.

É preciso mais orçamento para as políticas de combate à violência de gênero no campo, nas águas e nas florestas, para a promoção da organização produtiva das mulheres, assim como para a comercialização e o abastecimento alimentar. É necessária a articulação de programas e políticas públicas que priorizem a vida no centro dos territórios, e não a lógica extrativista e produtivista que exclui mulheres, jovens, crianças e idosas. Precisamos construir novas relações sociais baseadas na cooperação, no respeito às diversidades e na solidariedade, rompendo com todas as hierarquias de classe, raça e gênero.

Estamos aqui para afirmar que o Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário só é possível com a garantia efetiva da participação e da organização coletiva das mulheres. Por isso, é preciso que as mulheres estejam ocupando espaços de decisão em seus territórios e comunidades.

Precisamos avançar na transição agroecológica como caminho possível para responder às crises ambientais e climáticas. Para isso, é necessário um conjunto de políticas que visem à transformação agroecológica dos sistemas alimentares. Precisamos de soberania e segurança alimentar e nutricional, acessar nossa condição como agricultoras, acessar nossos direitos previdenciários e à terra, e viver em segurança nos territórios.

Queremos a terra!
Queremos nossos corpos e territórios saudáveis, livres de veneno e transgênicos!
Queremos paz no campo e o fim das guerras!
Queremos o fim da escala 6×1 e a divisão justa do trabalho doméstico, pois queremos ter vida, e não uma sobrevida!
Queremos que as mulheres rurais também sejam consideradas na política de cuidados e tenham garantido o acesso à água para o trabalho de cuidado!
Queremos valorização e reconhecimento do nosso trabalho e da importância da nossa produção para o abastecimento, a segurança e a soberania alimentar!
Queremos uma transição energética justa, com soberania popular e o fim do racismo ambiental!
Demarcação dos nossos territórios!
Proteção da nossa sociobiodiversidade!
Queremos participação efetiva e poder de decisão!

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!!

Mulheres presentes na 3ª CNDRSS
Comitê de Mulheres do CONDRAF

Brasília, 27 de Março de 2026

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